O fármaco que reduz mortalidade em 80% e ninguém prescreve

TL;DR
Se existisse um remédio com esse efeito, a humanidade pagaria qualquer preço por ele. Esse remédio existe, e o paciente raramente é informado disso.
Se existisse um fármaco que reduzisse o risco de morte por todas as causas em até 80%, a humanidade pagaria qualquer preço por ele.
Esse fármaco existe. Chama-se exercício físico. E em nossa prática clínica na Plenya, ele é prescrito com o mesmo rigor de qualquer molécula.
O dado vem do estudo da Cleveland Clinic publicado por Mandsager e colegas no JAMA Network Open em 2018, com 122 mil adultos: baixa aptidão cardiorrespiratória mostrou hazard ratio de 5,04 contra a aptidão de elite. Para comparação, no mesmo estudo: tabagismo 1,41, diabetes 1,40, doença coronariana 1,29.
Sedentarismo mata mais que fumar. Não é provocação. É o número.

A aptidão cardiorrespiratória (medida pelo VO₂ máx) é, na leitura que nossa equipe adota, o marcador prognóstico mais poderoso da medicina interna. Mais que pressão arterial sistólica. Mais que o perfil lipídico. Mais que a glicemia. A American Heart Association, em 2016, já tinha publicado um scientific statement (Ross et al.) defendendo que a aptidão cardiorrespiratória deve ser tratada como sinal vital clínico: medida e registrada em prontuário como pressão e frequência cardíaca. É exatamente assim que tratamos o VO₂ máx no Continuum Plenya.
A literatura epidemiológica reforça em escala. O estudo de Wen e colegas no Lancet (2011), com mais de 416 mil adultos taiwaneses, demonstrou que 15 minutos diários de atividade moderada já reduzem mortalidade total em 14% e estendem expectativa de vida em três anos. A meta-análise de Ekelund (BMJ 2019), com dados de acelerômetro de 36 mil adultos, mostrou que substituir 30 minutos de sedentarismo por atividade leve já reduz mortalidade, não precisa ser exercício de alta intensidade. Lavie e colegas (Circ Res 2019) sintetizaram a evidência: o efeito do sedentarismo é independente do tempo de exercício formal: sentar muito mata mesmo em quem treina.
E o exercício é, ao mesmo tempo, o marcador mais barato de melhorar. Não exige medicamento de alto custo, não exige tecnologia de ponta. Exige tempo, estrutura e uma escolha clínica de prescrever exercício com o mesmo rigor com que prescrevemos um anti-hipertensivo: dose, frequência, intensidade, monitoramento. Pelo método AGIR (Atividade Física, Alimentação e Suplementação Inteligente · Gestão Clínica e Metabólica · Integração Mente-Corpo · Ritmo Circadiano e Repouso) que aplicamos, é assim que a equipe entrega exercício como terapia, não como conselho genérico.
Recorte do Capítulo 7 do livro ANTES — A Janela Silenciosa entre o Normal e o Ótimo.
Referências
- Mandsager K, Harb S, Cremer P, et al. "Association of Cardiorespiratory Fitness With Long-term Mortality Among Adults Undergoing Exercise Treadmill Testing." JAMA Netw Open. 2018;1(6):e183605.
- Ross R, Blair SN, Arena R, et al. "Importance of Assessing Cardiorespiratory Fitness in Clinical Practice: A Case for Fitness as a Clinical Vital Sign. A Scientific Statement From the American Heart Association." Circulation. 2016;134(24):e653-e699.
- Wen CP, Wai JPM, Tsai MK, et al. "Minimum amount of physical activity for reduced mortality and extended life expectancy: a prospective cohort study." Lancet. 2011;378(9798):1244-1253.
- Ekelund U, Tarp J, Steene-Johannessen J, et al. "Dose-response associations between accelerometry measured physical activity and sedentary time and all cause mortality: systematic review and harmonised meta-analysis." BMJ. 2019;366:l4570.
- Lavie CJ, Ozemek C, Carbone S, Katzmarzyk PT, Blair SN. "Sedentary Behavior, Exercise, and Cardiovascular Health." Circ Res. 2019;124(5):799-815.