Medicina 2.0 contra Medicina 3.0: alarme ou detector

TL;DR
A medicina que tratou seu pai não é a medicina que vai te tratar. A diferença está em quando ela atua.
A diferença entre Medicina 2.0 e Medicina 3.0 é a diferença entre um alarme de incêndio e um detector de fumaça.
O alarme toca quando já está queimando. O detector toca quando a fumaça começa.
A Medicina 2.0 (a que aprendemos na faculdade, a que se pratica na maior parte dos consultórios brasileiros) é construída para ato dois. Tratar a doença instalada. Escolher o remédio certo, fazer a cirurgia certa, dar o tratamento certo no momento em que tudo já está acontecendo.
A Medicina 3.0 não substitui a 2.0. Ela acrescenta o ato um. Procura a fumaça antes da chama. Trabalha com biomarcadores que se movem cinco, dez, vinte anos antes do diagnóstico: insulina de jejum, ApoB, PCR ultrassensível, homocisteína, VO₂ máx, força de preensão. É exatamente esse ato um que nossa equipe na Plenya organiza pelo método AGIR (Atividade Física, Alimentação e Suplementação Inteligente · Gestão Clínica e Metabólica · Integração Mente-Corpo · Ritmo Circadiano e Repouso).

Cada um desses biomarcadores tem literatura sólida atrás. O ApoB, segundo a revisão de Sniderman e colegas em 2019 (JAMA Cardiology), prediz risco aterosclerótico melhor que LDL-C porque mede o número real de partículas aterogênicas, e começa a desviar antes do colesterol total se mexer. O VO₂ máx, no estudo de Mandsager (JAMA Netw Open 2018), é o marcador prognóstico de mortalidade total mais poderoso já estudado, mais forte que tabagismo. A American Heart Association (Ross 2016) defende que aptidão cardiorrespiratória deve ser tratada como sinal vital. O hs-CRP, na linha do CANTOS de Ridker (NEJM 2017), conecta inflamação subclínica a desfechos cardiovasculares duros.
Recebemos no consultório casos como o de Ricardo, 52 anos, que fazia check-up todo ano. Todos os exames "normais". Quase morreu de infarto num estacionamento. Nenhum dos seis marcadores que estavam fora do ótimo aparecia no painel convencional. O alarme só foi tocar quando o fogo já tinha começado.
A pergunta que nossa abordagem integrativa coloca não é "estou com doença?". É: "estou no caminho dela?".
Recorte do Capítulo 1 do livro ANTES — A Janela Silenciosa entre o Normal e o Ótimo.
Referências
- Sniderman AD, Thanassoulis G, Glavinovic T, et al. "Apolipoprotein B Particles and Cardiovascular Disease: A Narrative Review." JAMA Cardiol. 2019;4(12):1287-1295.
- Mandsager K, Harb S, Cremer P, et al. "Association of Cardiorespiratory Fitness With Long-term Mortality Among Adults Undergoing Exercise Treadmill Testing." JAMA Netw Open. 2018;1(6):e183605.
- Ridker PM, Everett BM, Thuren T, et al. "Antiinflammatory Therapy with Canakinumab for Atherosclerotic Disease." N Engl J Med. 2017;377(12):1119-1131.
- Ross R, Blair SN, Arena R, et al. "Importance of Assessing Cardiorespiratory Fitness in Clinical Practice: A Scientific Statement From the American Heart Association." Circulation. 2016;134(24):e653-e699.
- Amaral Filho GJM. "ANTES — A Janela Silenciosa entre o Normal e o Ótimo." 2026, ISBN 978-65-02-06742-0.